HOMILIA NA SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO

Catedral Metropolitana de Campinas, 8 de dezembro de 2018.

Solenidade da Imaculada Conceição de Maria

Padroeira da Cidade, da Arquidiocese e da Catedral Metropolitana de Campinas.

 

Primeira Leitura: Gn 3,9-15.20;

Salmo: 97;

Segunda Leitura: Ef 1,3-6.11-12;

Evangelho: Lc 1,26-38;

Irmãos e irmãs na fé em Jesus Cristo! Celebramos hoje com grande alegria a Solenidade da Imaculada Conceição de Maria, nossa Padroeira. Maria foi concebida sem a mancha do pecado original e desse modo Deus preparou nela uma digna habitação para o seu Filho único, Jesus Cristo. Maria concebida sem pecado, eis a verdade de fé que a Igreja proclama de geração em geração e que Papa Pio IX proclamou de modo definitivo e solene, por meio do dogma Ineffabilis Deus, de 8 de dezembro de 1854, pelo Papa Pio IX. Grandes maravilhas operou Deus na vida de Maria, a jovem simples de Nazaré da Galileia, em vista da salvação de toda a humanidade.

O anjo Gabriel assim a saudou:

Ave Cheia de Graça!

Desde o ventre de sua mãe, Maria foi agraciada pelos dons divinos. Concebida sem a mancha do pecado original, ela foi preparada por Deus para ser a mãe de Jesus Cristo seu Filho. O pecado das origens nos foi relatado na primeira leitura de hoje, extraída do Livro do Gênesis. O ser humano é seduzido a tornar-se autossuficiente em relação a Deus e ao seu semelhante. A tentação da serpente, símbolo da força do mal, consistiu em sussurrar ao homem e à mulher que o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, que Deus lhes proibira comer, era o segredo para se tornarem iguais a Deus. Incita, desse modo, a serpente, a verem em Deus, não o criador mas o concorrente. A desobediência os leva a comer do fruto, no anseio de serem iguais ou superiores a Deus que já os havia criado à sua imagem e semelhança. Mas o pecado consiste justamente em querer ser como Deus, sem ele: autossuficiência! Tal anseio de autossuficiência quebra no ser humano a integridade original, seu coração se fragmenta pela divisão decorrente da mentira e dos apelos do egoísmo insaciável; ele perde a humildade e vive na situação de desgraça, no vazio de seu inchaço de morte. O pecado original da autossuficiência faz com que o ser humano, invertendo a ordem de todas as coisas, atribua a Deus a origem do mal e do pecado, para isentar-se de toda a culpa pelo mal uso de sua liberdade. Diz Adão: “a mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu do fruto da árvore, e eu comi”; diz Eva: “a serpente enganou-me e eu comi”. É a transferência da culpa! Quando Adão diz que a mulher que Deus lhe dera por companheira é a responsável por ele ter comido do fruto proibido, no fundo ele culpa a Deus pela queda.

Mas nem por isso Deus desiste do ser humano! Sua misericórdia é sem fim e seu amor é desde sempre e para sempre! Em vista da redenção da humanidade decaída, Deus preparou em Maria as condições para que, pelas sendas da vida humana, Jesus Cristo nos viesse ao encontro para nos reerguer na dignidade da graça redentora. Ele quis precisar de Maria. E, mesmo antes da Encarnação de Jesus Cristo, ela pôde ser chamada “cheia de graça”. Deus a preparou para seus propósitos de redenção, antecipando nela o que Ele reserva para toda a humanidade. Ela já é prenúncio da humanidade restaurada na graça de Deus.

Dizer que Maria foi concebida sem a mancha do pecado original significa, portanto, que ela é toda de Deus, não autossuficiente mas humilde e obediente ao criador, não sujeita às contradições do pecado, mas íntegra na pureza da verdade, não ludibriada à desobediência mas fiel. Nova Eva, ela é comparada à primeira mulher não pela conivência com o pecado mas pelo contraposição a ele, na graça que aquela perdeu e que esta conservou. Se por uma mulher entrou no mundo o pecado, por uma mulher nos veio a graça da redenção! O anjo Gabriel resumiu tudo nesta singela saudação: Ave cheia de graça!

Prossegue o anjo:

o Senhor é convosco!

Meus irmãos e minhas irmãs, poderíamos nos perguntar se tamanha graça na vida de Maria não representou uma ingerência de Deus em sua vida. Deus teria manipulado Maria, segundo sua própria vontade, impedindo-a do exercício da liberdade pessoal? De que modo Deus é com ela; de que modo Ele age nela? Deus nunca arranca do ser humano a liberdade! Se o primeiro homem e a primeira mulher conheceram o pecado por mal uso da própria liberdade, Maria, ao contrário, livremente acolheu a graça de Deus e a conservou fielmente. Deus concedeu-lhe todas as condições para colaborar com Ele na obra da redenção e ela soube fazer bom uso da graça, sendo dócil a Deus e dizendo-lhe um “sim” generoso e fiel. O ser humano, já em Maria, é chamado a entender que a vontade de Deus não escraviza mas liberta e gera vida. Deus está com ela e ela não lhe é indiferente. Deus se faz próximo de todos nós e não precisamos temer. Ele é nosso bem. Em Jesus Cristo, nascido de Maria por obra do Espírito Santo, nos tornamos obedientes ao Pai e verdadeiramente libertos e salvos no amor. Contemplando a Maria reconhecemos que Deus não nos abandona e Ele faz prodígios pelo seu povo. Sua mão e seu braço forte e santo alcançaram para nós a salvação. Cantemos a ele um canto novo a exemplo da primeira dentre todos os humanos que elevou ao criador o hino dos reconciliados, dos redimidos, Maria no Magnificat. “Ele olhou para a pequenez de sua serva; grandes coisas Ele fez em meu favor; seu nome é santo”.

Bendita sois entre as mulheres e bendito é o fruto de vosso ventre Jesus!

Fiel a Deus, Maria é bem aventurada, é bendita, abençoada! Todas as gerações a chamam bendita! De seu ventre virginal nos vem o fruto bendito. Bela imagem aquela que a tradição da Igreja cunhou: o ventre de Maria é como um jardim protegido de onde germina a salvação; paraíso restaurado, ela mesma é árvore frondosa que nos dá um fruto não proibido mas necessário, o fruto bendito, Jesus Cristo. No lugar daquele fruto que levou à autossuficiência do pecado, Jesus Cristo é imagem da humanidade redimida na graça de Deus, fruto do ventre puríssimo de Maria, qual paraíso virginal da nova criação. Na Eucaristia nos alimentamos do fruto bendito, Jesus Cristo. Nele, o “Pai nos escolheu para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o seu olhar, no amor”. Nele, nos tornamos filhos adotivos do Pai, para o louvor de sua glória e da graça com que Ele nos cumulou no seu Bem-amado.

Irmãos e irmãs, meu coração exulta quando contemplo esta bela catedral que nossos antepassados edificaram em honra da Bem Aventurada Virgem Maria, a Imaculada Conceição. Contemplemos estes entalhes em madeira. Eles nos lembram as árvores do paraíso de Deus, do jardim da nova criação em Jesus Cristo. É um emaranhado de folhas, flores e frutos, numa sinfonia de perfeição e beleza, que simboliza o ventre de Maria, qual jardim preservado onde germinou o rebento de Jessé, onde floresceu a graça redentora, de onde nos vem o fruto bendito, Jesus Cristo.

Aspiremos também nós à perfeição e à santidade. Que pela intercessão dela sejamos libertos da tentação e do mal, para alcançarmos a plenitude dos céus. Peçamos irmãos e irmãs a graça de levarmos uma vida verdadeiramente cristã tendo em Maria o modelo de fidelidade, de obediência livre à vontade de Deus para extirparmos de nossas vidas a divisão do pecado e experimentarmos a alegria e a verdadeira liberdade dos filhos e filhas de Deus.

+ LJC +

Mons. Rafael Capelato

Pároco da Catedral Metropolitana de Campinas

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