Homilia do 3º Domingo do Advento

Catedral Metropolitana de Campinas, 16/12/2018 – III° Domingo do Advento (Gaudete)

 – Ano litúrgico C.

– HOMILIA –

Primeira Leitura: Sf 3,14-18;

Cântico: Is 12, 2-3.4bcd.5-6;

Segunda Leitura: Fl 4, 4-7;

Evangelho: Lc 3,10-18;

O tempo litúrgico

Alegrai-vos! Eis o convite que a liturgia de hoje nos dirige. A Igreja ameniza o roxo deste tempo revestindo-se com o róseo que expressa o gáudio, a alegria que nasce da certeza da proximidade de Nosso Senhor Jesus Cristo. A coroa do Advento brilha ainda mais fazendo-nos contemplar sempre de modo mais intenso a luz de Cristo que veio no presépio. Começamos, desde agora, a ouvir os sussurros daquilo que proclamaremos com voz forte na noite santa do Natal, na passagem de Is 9: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz (…) todos se alegrarão perante ti (…) porque um menino nos nasceu; um filho nos foi dado (…) seu nome será: Conselheiro Maravilhoso, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz!” O Senhor está próximo! Alegremo-nos.

Somos chamados a celebrar o Domingo Gaudete enquanto ainda enxugamos as lágrimas de nosso olhos. Nesta semana que findou, nossa Catedral foi sangrada. Fomos todos atingidos pela dor e pela tristeza. Famílias pelo vínculo de sangue e família de fé – comunidade Igreja – todos choramos a morte daqueles que tombaram neste Templo Sagrado. E então, a alegria nos foi arrancada? Mas o Senhor é a nossa alegria e esperança! Que nos cabe, irmãos e irmãs? Temperar a tristeza com a alegria, gloriar-nos, ainda que nas tribulações. Cristo foi, é e será sempre a razão última de nossa vida. Nele toda lágrima é enxugada, Nele temos a vida, Ele é nossa paz e alegria.

 

A Palavra

A cidade de Sião, Jerusalém, é chamada a dar brados de júbilo, de alegria, porque o Senhor Deus revoga a sentença contra o seu povo e, mais ainda, porque Ele se coloca em seu meio, como seu salvador. A fidelidade do resto de Israel é a garantia para que Deus o reconstrua e o fortaleça como povo novo, após a trágica experiência do Exílio babilônico. A Igreja, desde os primórdios, sempre entendeu que a Filha de Sião jubilosa é imagem de Maria Santíssima. Ela é o melhor exemplar dentre todos os que formam o novo povo que Deus chama para si. Dentre todos os que creem, ela é a primeira, ela “puxa a fila” dos que fielmente buscam a Deus. Por isso ela é imagem da Igreja que peregrina no mundo para proclamar as maravilhas do Senhor.

Mas Maria foi escolhida por Deus para ser a mãe do Salvador; ela é toda de Deus, perfeita e santa; ela foi preservada da mancha do pecado original. Ela não precisa de conversão. Nós, porém, precisamos. Ela já é cheia da graça que nós ainda buscamos. Para chegarmos a proclamar como ela “minha alma se alegra em Deus, meu salvador”, precisamos passar pela conversão de nossa vida.

No Evangelho desponta o tema da conversão, pelas palavras desta importante figura do Advento, João Batista. A multidão do povo, os cobradores de impostoso, os soldados, todos perguntam a João: “O que devemos fazer?” A resposta geral do precursor vai na linha da partilha, ou seja, a restituição da justiça. Levando em consideração os deveres de ofícios específicos, ele acena para o cumprimento do que é próprio a cada um: não roubar, não praticar a violência, em tudo viver o equilíbrio da justiça: no uso dos bens materiais e nas relações estabelecidas uns com os outros. Toca-se, aqui, nas questões de consciência: a busca da reta consciência que resulta do assumir o critério norteador de tudo, a saber, a vontade de Deus. A justiça é, pois, antes de tudo, restaurar a relação com Deus, reconhecendo que ele é o criador e nós somos seus filhos e filhas. Por isso João Batista coloca-se, ele mesmo, como modelo dessa consciência verdadeira: “Ele (aquele que está para chegar – o Messias) é mais forte do que eu e eu não sou digno de desatar as correias de suas sandálias”. João é humilde no exercício de sua missão de preparar os corações para a entrada do Messias. A humildade restabelece a justiça na relação com Deus e com os irmãos; a justiça gera a paz e a alegria.

O messias vai limpar a eira (terreiro onde se processam os grãos para separar a palha), recolhendo o trigo e queimando a palha. Ele vai restabelecer toda a justiça. A conversão conclamada pelo Batista consiste, pois, em abraçar a justiça por meio de uma consciência pautada pelo absoluto da verdade de Deus.

A consciência reta e verdadeira diante de Deus, a inspirar todas as nossas escolhas e todo o nosso agir, é a garantia de nossa paz e de nossa alegria, mesmo se enfrentarmos as contradições da maldade e da injustiça presentes neste mundo fugaz. De fato, é exatamente isso que nos fala o Apóstolo São Paulo na segunda leitura de hoje. Não nos inquietemos com nada. Apresentemos, pois, a Deus, todas as nossas necessidades com orações, súplicas e ações de graças. E a paz de Deus guardará os nossos corações e pensamentos em Cristo Jesus.

 

A vida

A liturgia da Palavra deste domingo nos faz compreender que a alegria não consiste nos bens ou nas situações de êxito ou posições ou nos vínculos estabelecidos. Adquirir um novo bem material nos alegra? Mas isso é tão fugaz! Mal desembrulhamos o novo produto e já dele enjoamos. O que nos alegra? Um posto de privilégio, os elogios, os aplausos? Tudo isso é fugaz demais! Os cargos caem, os privilégios são ilusões, os elogios podem até ser falsos, os aplausos silenciam rápido demais! Os vínculos humanos nos alegram? Amigos e familiares, sim, são importantes e representam alegrias necessárias para nossa vida. Mas os vínculos também passam! Podemos, hoje mesmo, ver um amigo ou um ente muito querido, fechar os olhos para esta vida! Todas essas alegrias são relativas e fugazes; sujeitas ao espaço e ao tempo. Existe, então, a alegria? Ela pode ser perene? O que devemos fazer? A alegria verdadeira existe e consiste em edificarmos em nós a consciência reta e verdadeira como condição para praticarmos a justiça. Na vontade de Deus, habitando nossos corações, nossa consciência, está a nossa paz e a nossa alegria (voluntas Dei, pax mostra). Nada realiza mais o ser humano do que a consciência de cumprir com a vontade de Deus, amando-o sobre todas as coisas e agir retamente em relação ao seu próximo. Por isso, em cada circunstância da vida, antes de tomarmos decisões e agirmos, devemos nos perguntar diante de Deus, meditando e orando, “o que devo fazer?”. A conversão do modo de pensar, de querer e de agir, pautada na vontade de Deus, nossa justiça, alegra-nos e dá sentido à vida. Não nos deixemos levar pela compulsão das paixões desordenadas; não sejamos escravos da ira, da vingança, dos desequilíbrios da iniquidade, mas busquemos edificar-nos por meio das virtudes cardeais: a temperança, a justiça, a fortaleza e a prudência. Somente assim podemos superar a dor, o sofrimento, a tristeza decorrentes da tragédia ocorrida em nossa Catedral, no último dia 11. Não desistamos de edificar em nós a solidez do equilíbrio humano e cristão, colocando Deus como critério maior de nossas vidas, para sanarmos todo desequilíbrio e colocarmos o remédio da verdadeira e perene alegria nas feridas da tristeza, que foram abertas em nós.

Vinde, ó Príncipe da Paz, vinde nos trazer a alegria!

 

+ LJC +

Mons. Rafael Capelato

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